Foto: Patricia Penna
Com mais de 900 marcas, evento reúne mercado nacional e internacional e tenta transformar a feira em uma plataforma permanente de negócios, conhecimento e articulação
Belo Horizonte volta a ser, nesta quarta-feira (12) e quinta-feira (13), um dos principais pontos de encontro do turismo brasileiro. A quarta edição da Travel Next Minas ocupa o Expominas com mais de 900 marcas, operadoras, destinos e empresas nacionais e internacionais, mas a dimensão que mais chama atenção nesta edição não está apenas no tamanho da feira. Está na tentativa de ampliar sua função dentro do mercado.

A proposta apresentada na abertura por Rúbia Coser, idealizadora do evento, é fazer da Travel Next Minas uma plataforma de articulação capaz de aproximar iniciativa privada, poder público, entidades, municípios e profissionais do setor. A feira, realizada desde 2023, chega à quarta edição depois de registrar cerca de 7,2 mil visitantes e mais de 600 marcas em 2025.
“Não estamos propondo um evento, estamos propondo um instrumento de política pública de turismo, de articulação institucional e de projeção econômica, com curadoria, método e alma”, afirmou Rúbia durante a abertura.
A declaração ajuda a entender o movimento desta edição. Mais do que concentrar fornecedores e compradores em dois dias, a Travel Next Minas tenta ocupar um espaço de conexão entre a oferta turística de Minas Gerais e os mercados que podem transformá-la em produto.
Da origem à inovação
O conceito “Da origem à inovação” organiza a edição de 2026 e coloca a identidade mineira no centro da programação. Cultura, gastronomia, hospitalidade, criatividade, tecnologia e negócios aparecem conectados à tentativa de mostrar que a chamada mineiridade pode ser trabalhada comercialmente sem perder sua dimensão cultural.
A estrutura da feira foi distribuída em diferentes ambientes. O Cena Aberta aproxima turismo, cultura, gastronomia e arte. A Arena concentra encontros, debates e treinamentos. O Travel Lounge é dedicado ao mercado de luxo, enquanto a Janela Lateral amplia a oferta de capacitação e inovação, com conteúdos que incluem aplicações de inteligência artificial no turismo.
A programação de capacitação também foi construída para responder a questões práticas das agências, incluindo vendas, tecnologia, gestão de risco e inteligência artificial.
A gastronomia ocupa outro espaço importante nessa estratégia. Ao tratar a cozinha mineira como patrimônio e experiência turística, o evento aproxima território, memória e consumo. A abertura, inclusive, foi estruturada para colocar a gastronomia no centro da experiência do visitante, reforçando uma tendência que vem ganhando espaço na promoção de destinos: transformar identidade local em conteúdo e produto turístico.
O mercado precisa transformar conexão em produto
Entre os movimentos mais relevantes está o Fan Travel, iniciativa que aproxima operadores e agentes de viagens de destinos e produtos. A lógica é diferente da simples exposição de destinos: colocar profissionais diante de experiências que possam ser compreendidas, comercializadas e incorporadas ao portfólio das empresas.
Esse ponto é particularmente importante para Minas Gerais. O Estado possui uma oferta turística extensa, mas parte dela ainda depende de maior organização comercial, distribuição e presença nos canais de venda.
É nesse intervalo entre atrativo e produto que uma feira como a Travel Next pode exercer influência. A conexão com operadores e agentes permite testar narrativas, identificar demandas e aproximar destinos de quem efetivamente participa da decisão de compra.
A edição reúne mais de 20 operadoras e mais de 24 expositores internacionais, ampliando a interlocução de Minas com outros mercados e destinos. A presença internacional também acompanha uma estratégia de crescimento do turismo receptivo brasileiro, em um momento de maior entrada de visitantes estrangeiros no país.
Minas no centro da discussão
A abertura reuniu representantes de entidades e instituições ligadas diretamente à cadeia turística.
O presidente da ABAV Minas Gerais, Alexandre Brandão, destacou a hospitalidade mineira e a capacidade do Estado de utilizar gastronomia, cultura e espaços de convivência como elementos de promoção turística.
Pelo Sistema Fecomércio MG, Sesc e Senac, Milena Soares, supervisora de Turismo, ressaltou o papel da qualificação profissional e a participação do Senac na Arena de Conhecimento. A hotelaria também esteve representada pelo vice-presidente da ABIH-MG, Rodrigo Gansado, que chamou atenção para a necessidade de ampliar a experiência oferecida pela hospedagem, incorporando elementos da cultura e da gastronomia local.
Representando o Sebrae Minas, Natália Ega apresentou o avanço dos negócios relacionados às atividades características do turismo e destacou iniciativas de qualificação e estruturação de rotas.
O conjunto das falas aponta para uma questão central: o crescimento do turismo mineiro depende menos de uma ação isolada e mais da capacidade de integrar empresas, destinos, instituições e profissionais em torno de uma mesma cadeia de valor.
Conexão internacional ganha espaço
A dimensão internacional também apareceu na cerimônia. Alisson Andrade, coordenador de Mercados Internacionais da Embratur, destacou a diversidade cultural, patrimonial e gastronômica de Minas como ativos capazes de dialogar com o visitante estrangeiro.
O desafio, nesse caso, é transformar reconhecimento em fluxo. Para isso, destinos precisam estar preparados para distribuição, promoção, conectividade, atendimento e construção de produtos compatíveis com diferentes mercados.
A discussão também envolve sustentabilidade e inteligência de mercado, especialmente diante da necessidade de fazer com que o crescimento do turismo internacional alcance mais municípios e empreendedores.
Representantes da Invest Minas reforçaram ainda a dimensão econômica da atividade, especialmente na geração de emprego, renda, investimentos e novas oportunidades para os municípios.
A subsecretária de Estado de Turismo de Minas Gerais, Cássia Gomes, destacou a evolução do setor e o papel das parcerias entre governo, municípios, entidades e iniciativa privada.
O Rio Grande do Sul, estado homenageado nesta edição, também entrou nessa lógica de integração. A secretária de Turismo, Cláudia Mara, defendeu a valorização das características próprias de cada destino e a construção de experiências baseadas em identidade cultural e gastronômica.
Mais que dois dias de feira
A principal mensagem da abertura, portanto, não está apenas no volume de expositores ou na presença internacional. Está na tentativa de transformar a Travel Next Minas em uma estrutura de relacionamento que continue funcionando depois do encerramento da feira.
Essa ambição muda a régua pela qual o evento pode ser avaliado. Se a proposta é ser uma plataforma permanente, o resultado não estará somente no número de participantes, reuniões ou negócios realizados no Expominas. Estará também na capacidade de gerar novas conexões entre destinos e distribuidores, estimular produtos, aproximar mercados e influenciar decisões do setor ao longo do ano.
A própria trajetória recente ajuda a explicar esse movimento. A feira cresceu de forma acelerada desde sua primeira edição e chegou a 2025 com mais de 7 mil visitantes e mais de 600 marcas, segundo dados divulgados à época.
Agora, a quarta edição procura dar um passo além da escala.
A Travel Next Minas coloca Minas Gerais no centro da conversa, mas a discussão proposta pela feira é maior: como transformar identidade, território e diversidade em negócios sustentáveis e produtos competitivos? A resposta ainda dependerá dos resultados que surgirem depois dos dois dias de evento. É justamente aí que estará o teste mais importante da proposta apresentada por Rubia Coser.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
A Travel Next Minas entra em uma fase diferente. O crescimento da feira criou escala suficiente para que sua relevância passe a ser medida não apenas pela quantidade de marcas ou visitantes, mas pela capacidade de influenciar a cadeia turística.
O ponto estratégico está na conexão entre território e distribuição. Minas Gerais já possui ativos turísticos reconhecidos; o desafio é ampliar sua transformação em produtos comercializáveis, conectados a operadores, agências, hotelaria, transporte e mercados internacionais.
Se conseguir manter essa articulação ao longo do ano, a Travel Next pode ocupar um espaço pouco explorado no calendário de eventos do turismo: o de uma feira que não termina quando os estandes são desmontados. Para o mercado, esse será o principal indicador de maturidade do projeto.

