Cerro Campanário, um dos principais mirantes da região, mostra como o destino argentino diversifica sua oferta para além do esqui e das atividades de inverno
Bariloche construiu sua imagem turística internacional sobre a neve. O inverno, as montanhas e os esportes de neve continuam sendo parte central da identidade do destino argentino, mas a experiência oferecida ao visitante vem ganhando outras camadas. Em um cenário de crescimento do turismo de bem-estar e de maior procura por natureza e experiências ao ar livre, a contemplação da paisagem passa a ocupar espaço estratégico na oferta turística local.
Um dos exemplos mais emblemáticos desse movimento é o Cerro Campanário, localizado a cerca de 17 quilômetros do centro de Bariloche. Reconhecido pela National Geographic entre as vistas panorâmicas mais bonitas do mundo, o mirante permite observar, em uma perspectiva de 360 graus, lagos de origem glacial, florestas, montanhas e diferentes pontos da Cordilheira dos Andes.
A experiência contrasta com a imagem mais tradicional do inverno em Bariloche. Enquanto parte dos visitantes se concentra nas pistas de esqui, o Campanário oferece uma atividade que não depende da prática esportiva e pode ser incorporada ao roteiro de diferentes perfis de viajantes.
O acesso ao topo pode ser feito pelo teleférico, em um percurso de aproximadamente sete minutos, ou por uma trilha de cerca de 30 minutos entre a vegetação nativa. A facilidade de acesso amplia o público potencial da atração, que pode receber famílias, casais, idosos e viajantes que simplesmente querem observar a paisagem.
Do alto, o visitante encontra uma sucessão de referências da geografia patagônica. A vista alcança os lagos Nahuel Huapi e Moreno, a Península San Pedro, a Ilha Victoria, o Hotel Llao Llao, os cerros López e Catedral e diferentes picos da Cordilheira dos Andes.
No inverno, a neve acrescenta outra dimensão ao cenário. Nas demais épocas do ano, a combinação entre os lagos, as florestas e a mudança das cores da vegetação transforma a experiência, reforçando o potencial do atrativo para uma operação turística que não dependa exclusivamente da temporada de neve.
Natureza como experiência de bem-estar
A diversificação da oferta ocorre em paralelo a uma transformação mais ampla no comportamento dos viajantes. Dados do Global Wellness Institute (GWI) citados pelo destino apontam que o turismo de bem-estar movimentou US$ 894 bilhões em 2024, associado a mais de 1,2 bilhão de viagens no mundo.
Mais do que a dimensão financeira desse mercado, o dado ajuda a contextualizar uma mudança na maneira como parte dos turistas escolhe e consome destinos. O contato com ambientes naturais, o ritmo mais desacelerado e experiências que proporcionem descanso e conexão com o entorno passaram a integrar a decisão de viagem.
É nesse espaço que atrações como o Cerro Campanário ganham relevância. O produto turístico não está apenas no mirante, mas na experiência de permanecer diante da paisagem e transformar a observação em parte do roteiro.
“O inverno em Bariloche oferece diferentes formas de viver a natureza. Além dos esportes de neve, muitos visitantes procuram momentos de contemplação e conexão com a paisagem. O Cerro Campanário reúne essa experiência em um único lugar, oferecendo uma vista panorâmica da região e um lado diferente do destino”, afirma Eric Gusman, presidente do Emprotur.
No topo, a experiência pode ser estendida em uma confeitaria com grandes janelas voltadas para a paisagem, onde são servidos cafés, chocolates quentes, doces e outras especialidades locais. O espaço complementa o passeio sem alterar sua característica principal: a relação direta com o cenário natural.
Um produto que ajuda a ampliar Bariloche
O Cerro Campanário também integra o Circuito Chico, roteiro de aproximadamente 60 quilômetros que reúne lagos, bosques, praias, mirantes e construções históricas, entre elas o Hotel Llao Llao.
Essa integração é importante porque coloca o mirante dentro de uma experiência territorial mais ampla. Em vez de funcionar como uma atração isolada, o Campanário contribui para uma lógica de roteiro que distribui o tempo do visitante por diferentes pontos de Bariloche.
Para o destino, ampliar essa percepção significa reduzir a dependência de uma única motivação de viagem. A neve continua sendo um dos grandes ativos turísticos da cidade, mas a paisagem, os lagos, os bosques e as experiências de contemplação permitem construir argumentos de viagem que permanecem relevantes mesmo quando o visitante não está interessado em esquiar.
Essa diversificação também interessa ao trade. Para agentes e operadores, ter produtos com diferentes níveis de esforço físico, duração e motivação facilita a composição de roteiros para públicos variados e permite apresentar Bariloche como uma experiência mais ampla do que uma viagem exclusivamente de inverno.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
O movimento de Bariloche revela uma questão que ultrapassa o destino argentino: destinos consolidados precisam ampliar suas razões para serem visitados sem abandonar os produtos que construíram sua reputação.
No caso de Bariloche, a neve continua sendo um poderoso ativo comercial. O desafio está em fazer com que ela deixe de ser a única porta de entrada para a experiência. Natureza, gastronomia, contemplação e bem-estar ajudam a construir uma oferta mais diversificada e, principalmente, mais adaptável aos diferentes perfis de viajantes.
O Cerro Campanário representa bem essa estratégia porque transforma um elemento permanente do território — a paisagem — em produto turístico. Isso reduz a dependência de atividades específicas e permite que o mesmo cenário seja reinterpretado conforme a estação e o perfil do visitante.
Para o mercado brasileiro, a oportunidade está justamente nessa mudança de narrativa. Bariloche pode continuar sendo vendida como destino de neve, mas passa a ter argumentos para ser trabalhada como destino de natureza durante todo o ano, ampliando as possibilidades de roteiro e a frequência de comercialização.

