Nascer do Sol no Monte Nemrut em Adıyaman (Foto: Divulgação)
A Turquia encerrou o primeiro semestre de 2026 com menos visitantes, mas praticamente sem perda de receita turística. Entre janeiro e junho, o país recebeu 25,76 milhões de visitantes, queda de 2,4% em relação aos 26,39 milhões registrados no mesmo período de 2025. A receita chegou a US$ 25,75 bilhões, recuo de apenas 0,1% na comparação anual.
Os números foram apresentados pelo ministro da Cultura e do Turismo, Mehmet Nuri Ersoy, em coletiva realizada em Istambul em 31 de julho. Segundo o governo turco, o desempenho foi influenciado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, que afetaram a mobilidade internacional, o tráfego aéreo e as reservas, especialmente durante o segundo trimestre.
A leitura dos dados, porém, vai além da retração no fluxo. A Turquia conseguiu compensar parte da redução de visitantes com uma evolução no valor gerado por cada viajante.
O gasto médio por visitante aumentou 2,5%, para US$ 1.020, enquanto o gasto médio por noite chegou a US$ 108, também 2,5% acima do registrado no ano anterior. A permanência média subiu para 10,01 noites, ante 9,96 noites no primeiro semestre de 2025.
É essa combinação que explica por que uma queda de visitantes pouco alterou o resultado financeiro do setor.
Geopolítica afeta fluxo, mas não desmonta a demanda
O segundo trimestre concentrou o impacto mais evidente do cenário regional. Entre abril e junho, a receita turística da Turquia caiu 2,6%, para US$ 15,87 bilhões, enquanto o número de visitantes recuou 5,1%, para 15,58 milhões.
O desempenho indica que a turbulência regional teve efeito sobre a decisão de viajar, mas não provocou uma retração proporcional na geração de receita.
Segundo Ersoy, a expectativa do governo é de recuperação na segunda metade do ano. O ministro afirmou que as projeções apontam para um desempenho significativamente melhor no restante de 2026 e que os primeiros sinais de retomada já apareceram em julho.
A estratégia turca para enfrentar períodos de instabilidade também passa pela diversificação de mercados emissores e pela promoção internacional conduzida pela Türkiye Tourism Promotion and Development Agency (TGA), apontada pelo governo como um dos fatores que ajudaram a limitar a queda.
Rússia, Alemanha e Reino Unido seguem na liderança
A composição dos principais mercados emissores permaneceu praticamente inalterada.
A Rússia liderou com aproximadamente 2,65 milhões de visitantes, seguida pela Alemanha, com 2,44 milhões, e pelo Reino Unido, com 1,58 milhão.
A manutenção desses mercados entre os principais emissores ajuda a dar estabilidade à demanda, ao mesmo tempo em que a diversificação geográfica reduz a dependência de uma única origem.
Para um destino de escala continental como a Turquia, essa distribuição tem importância estratégica. A capacidade de compensar oscilações em determinados mercados com demanda proveniente de outros países reduz a exposição a crises localizadas e amplia a resiliência da atividade turística.
O visitante passou mais tempo e gastou mais
O dado mais relevante do primeiro semestre está no comportamento do visitante.
A permanência média de 10,01 noites representa uma alta de 0,5% sobre o ano anterior. Já o gasto médio por noite chegou a US$ 108 nos dados estatísticos oficiais.
No segundo trimestre, o gasto médio por visitante chegou a US$ 1.005, enquanto o gasto por noite atingiu US$ 113. A acomodação teve aumento de 11,7% nas despesas em relação ao mesmo trimestre de 2025, enquanto alimentação e bebidas cresceram 5,2%.
O comportamento reforça uma mudança de qualidade no fluxo turístico: mesmo com menos pessoas chegando ao país, aqueles que viajaram permaneceram por mais tempo e movimentaram mais recursos.
Um resultado que interessa ao mercado brasileiro
A Turquia permanece entre os destinos internacionais de maior relevância para o mercado brasileiro, especialmente por sua combinação de patrimônio histórico, cultura, gastronomia, paisagens e diversidade de produtos.
Para operadores e agentes brasileiros, a manutenção da receita em um cenário de pressão geopolítica oferece um indicador importante sobre a capacidade do destino de sustentar sua oferta. A diversidade de produtos também permite distribuir a demanda por diferentes regiões e perfis de viajantes.
O resultado do primeiro semestre não elimina os efeitos das tensões regionais, mas mostra que a Turquia conseguiu absorver parte do impacto sem comprometer significativamente o valor econômico gerado pelo turismo.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
Os números do primeiro semestre trazem uma leitura que merece mais atenção do que a simples contagem de visitantes: a Turquia está conseguindo defender receita mesmo quando o volume oscila.
Para o mercado turístico, essa diferença é fundamental. Um destino que depende exclusivamente de crescimento de chegadas fica mais exposto a crises externas. Já aquele que consegue elevar permanência e gasto médio possui maior capacidade de absorver períodos de demanda mais fraca.
A Turquia teve exatamente esse comportamento no primeiro semestre. A queda de visitantes foi parcialmente compensada por mais noites e maior gasto, mantendo a receita praticamente estável.
O resultado também ajuda a entender a estratégia adotada pelo país nos últimos anos: ampliar mercados emissores, diversificar produtos e buscar um visitante de maior valor econômico. Em um ambiente internacional marcado por instabilidade geopolítica, essa combinação reduz a dependência de volume puro.
Para o trade brasileiro, o sinal é positivo, mas deve ser interpretado com cautela. O cenário regional continua sendo um fator de risco para a mobilidade internacional e pode alterar fluxos rapidamente.
Ainda assim, os dados do primeiro semestre mostram uma Turquia que, diante de um choque externo, não apenas preservou seu faturamento turístico, mas aumentou o valor médio gerado por quem efetivamente chegou ao país. É uma diferença importante entre crescer em quantidade e crescer em qualidade.

