Foz do Iguaçu foi palco, em 2007, do primeiro debate científico brasileiro sobre turismo e sequestro de carbono — tema que voltou à agenda em abril de 2025 durante imersão promovida pelo Viaje Paraná. Cataratas do Iguaçu (Foto Bruno Bimbato)
No FITCataratas, um artigo científico fez a pergunta certa antes de todo mundo. O conceito ficou restrito ao ambiente acadêmico por anos. Agora começa a entrar na agenda prática do setor
A sala estava cheia no Festival Internacional de Turismo Cataratas, em 2007. Um artigo foi apresentado no Fórum Internacional de Turismo do Iguassu com um título que soava quase especulativo para a época: “O ecoturismo é possível em áreas destinadas a projetos de sequestro de carbono?
Era cedo demais. O mercado de carbono voluntário ainda era incipiente. O debate sobre emissões no turismo não existia como pauta de negócio. O estudo entrou no arquivo.
2007: quando o turismo discutiu carbono e ninguém prestou atenção
O artigo, assinado por José Manoel Gândara, Oswaldo de Castro Ramos Júnior e Simone Eloisa Villanueva de Castro Ramos, defendia uma tese direta: o ecoturismo pode ocorrer em áreas destinadas ao sequestro de carbono — desde que haja planejamento adequado, baixo impacto ambiental e social e geração de renda para as comunidades locais.
A atividade turística poderia financiar a absorção de gases de efeito estufa e ainda fixar populações nas regiões envolvidas. Não como problema de emissão — como solução de absorção.
O erro de enquadramento que o trade ainda comete no turismo de carbono

Em abril de 2025, em Foz do Iguaçu, a Imersão Executiva para Líderes promovida pelo Viaje Paraná trouxe de volta o debate. A pesquisadora Jaqueline Gil — que ministra o programa ao lado de Marta Poggi — foi direta ao resgatar a origem: “A discussão se deu no Festival das Cataratas em 2007. Foi pioneira no Brasil e praticamente inédita no cenário internacional.”
Jaqueline está concluindo o doutorado na Universidade de Brasília com foco em turismo de baixo carbono. A tese que vai defender expõe um ponto cego: o setor concentrou toda a atenção na redução de emissões e esqueceu a outra ponta.
“O turismo tem muita dificuldade para reduzir emissões de gases de efeito estufa. Mas tem um potencial enorme na ampliação dos sumidouros de carbono”, explicou.
O turismo pode financiar projetos de absorção de carbono — e se beneficiar diretamente deles. Destinos com florestas conservadas, áreas protegidas e projetos de reflorestamento têm ativo concreto para monetizar via créditos de carbono. Ainda não viraram produto. Por isso ainda existe espaço.
Quem estruturar primeiro define o padrão
A disputa não é entre destinos. É entre quem entendeu a lógica e quem ainda está debatendo compensação.
Destinos com ativos naturais relevantes — especialmente os que ainda não organizaram a conexão entre visitação, conservação e mercado de carbono — têm uma janela aberta. Quando o mercado internacional formalizar critérios mais rígidos, os que já tiverem produto, certificação e case estarão com margem. Os outros estarão correndo.
O erro comercial seria esperar.
Leitura do Mercado | Turismo&Eventos
O turismo ainda trata carbono como custo. O estudo apresentado em Foz do Iguaçu em 2007 sugere o oposto: pode virar receita. Quem entendeu isso já começou a estruturar produto. Quem não entendeu ainda está falando de compensação. A diferença entre os dois grupos vai aparecer quando o mercado internacional fechar os critérios — e aí não haverá tempo para improvisar.

