Leônidas Oliveira, secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais (Foto: Patricia Penna)
Minas Essencial será apresentado na ABAV com foco em povoados, gastronomia e experiências locais; estratégia busca ampliar a oferta comercial do Estado
Minas Gerais prepara uma mudança na forma de apresentar seus produtos turísticos ao mercado. A próxima participação do Estado na ABAV, em São Paulo, terá como principal novidade o Minas Essencial, projeto que amplia o foco da promoção para incluir distritos e povoados entre os elementos da oferta turística mineira.
A proposta parte de uma constatação apresentada pelo secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira, durante a Travel Next Minas, em Belo Horizonte: Minas já possui destinos reconhecidos, mas ainda há uma parcela significativa do território que permanece pouco explorada comercialmente.
A nova estratégia procura justamente ampliar esse repertório. Além dos atrativos tradicionais, entram em cena comunidades menores, gastronomia, tradições e modos de vida locais, apresentados como experiências que podem ganhar espaço nos roteiros comercializados pelo trade.
Distritos entram na prateleira do turismo
O Minas Essencial será apresentado em um dos maiores estandes da ABAV, com cerca de 1.500 metros quadrados, segundo o secretário. A proposta é utilizar o espaço para mostrar uma dimensão menos conhecida do Estado.
“Minas tem quase 5 mil distritos. Nós vamos mostrar essa natureza, vamos continuar mostrando a cozinha mineira, mas teremos um espaço de preparação e as quitandas de Minas para receber as pessoas, com café e quitandas”, adiantou Leônidas.
A escolha dos distritos muda a escala da promoção. Em vez de concentrar a narrativa em cidades e atrações já reconhecidas pelo mercado, o Estado pretende apresentar localidades menores que podem integrar roteiros de experiência, turismo rural, gastronomia e cultura.
Para o trade, a novidade está menos na descoberta de novos atrativos e mais na possibilidade de transformar territórios ainda pouco trabalhados em produtos comercializáveis.
Leônidas resume a intenção ao definir o Minas Essencial como uma forma de mostrar “aquilo que é original: os nossos povoados, os nossos distritos”.
Gastronomia como conexão com o território
A gastronomia terá papel importante nessa apresentação, mas dentro de uma estratégia mais ampla. Queijos, cafés, doces, quitandas e produtos regionais funcionam como elementos capazes de conectar o visitante aos lugares onde são produzidos e às comunidades que preservam essas tradições.
“A cozinha é realmente o centro da mineiridade”, afirmou o secretário, ao comentar a participação das Instâncias de Governança Regional do Turismo (IGRs) na Travel Next Minas.
Na ABAV, essa ideia também estará presente fisicamente no estande. Segundo Leônidas, haverá um espaço de preparação e de quitandas, com café para receber os visitantes.
A escolha ajuda a traduzir a estratégia de promoção em experiência. Em vez de apresentar Minas apenas por imagens e informações sobre seus destinos, o Estado pretende utilizar um de seus elementos culturais mais reconhecidos para criar contato direto com o público profissional da feira.
Experiência ganha espaço na promoção
A estratégia não significa abandonar os destinos que já fazem parte do imaginário turístico de Minas. Serra da Canastra, Grande Sertão Veredas, cachoeiras, patrimônio histórico e cultural e o chamado “mar de Minas” continuam integrando a oferta.
O que muda é a forma de conectá-los a uma experiência mais ampla.
Para Leônidas, a cultura tem papel decisivo nesse processo. “Num mundo onde as pessoas buscam contato com a verdade, é a cultura que é capaz de oferecer essa verdade”, afirmou.
A leitura do secretário é que o viajante procura cada vez mais uma relação com o território que vá além da visita a um atrativo. Nesse cenário, a gastronomia, as tradições e os modos de vida podem ajudar a construir produtos com maior identidade.
A questão para o mercado passa a ser transformar esses elementos em roteiros que possam ser apresentados, vendidos e operados de maneira consistente.
União do setor acompanha mudança
A reformulação da promoção ocorre em paralelo a um momento que o secretário considera de recuperação do turismo mineiro.
Segundo Leônidas, 2025 foi marcado por uma reorganização do setor, enquanto o movimento observado a partir de abril indica uma retomada mais consistente. Ele também destacou o crescimento no número de empresas ligadas à atividade, incluindo meios de hospedagem, restaurantes e outros negócios.
“2025 foi um ano de organização da casa. As pessoas sentiram que podem apostar no turismo”, ressaltou.
Para o secretário, a recuperação está relacionada à maior articulação entre governo, municípios e iniciativa privada.
“Estamos, neste momento, com uma organização do trade, uma organização dos restaurantes, uma organização dos municípios e o governo, todo mundo junto, preparado para crescer”, explicou.
Essa articulação ganha importância diante da nova estratégia. Para que distritos e comunidades menores deixem de ser apenas referências culturais e passem a fazer parte da oferta turística, será necessário conectar promoção, infraestrutura, receptivos, restaurantes, produtores e distribuição.
Renovar a oferta para manter o destino competitivo
A decisão de levar os distritos à ABAV também responde à necessidade de apresentar novidades ao mercado.
“Qualquer pessoa que trabalha com turismo sabe que é preciso trazer novidades para as prateleiras”, afirmou Leônidas.
A frase resume um desafio conhecido por destinos consolidados: continuar despertando interesse sem depender exclusivamente dos mesmos produtos.
No caso de Minas, a solução proposta não passa necessariamente pela criação de novas atrações, mas pela ampliação do que já existe. Comunidades, gastronomia, tradições e experiências locais podem ganhar nova função dentro da cadeia comercial do turismo.
Isso abre possibilidades para roteiros mais segmentados e para uma distribuição menos concentrada dos visitantes, desde que os novos produtos consigam chegar efetivamente aos operadores e agentes.
É nessa passagem entre identidade e comercialização que o Minas Essencial terá seu principal teste.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
A mudança mais interessante na estratégia de Minas Gerais não está no tamanho do estande ou na quantidade de atrativos apresentados na ABAV. Está na tentativa de ampliar o que o mercado entende como produto turístico mineiro.
Ao colocar distritos e povoados na narrativa promocional, o Estado procura transformar uma característica territorial em oportunidade comercial. Isso pode favorecer municípios menores e negócios ligados à gastronomia, hospedagem, receptivo e produção local, além de criar novas combinações para operadores.
Mas existe uma diferença importante entre promover uma localidade e transformá-la em produto. Para chegar às prateleiras das agências, o distrito precisa ter acesso, serviços, estrutura mínima, receptivo e uma experiência que possa ser compreendida e comercializada.
É justamente aí que a nova estratégia será colocada à prova.
Minas já possui reconhecimento suficiente para não precisar reinventar sua identidade. O movimento mais inteligente pode estar em organizar comercialmente aquilo que já existe, mas ainda não circula com a mesma força pelos canais de distribuição.
Se o Minas Essencial conseguir fazer essa ponte, a ABAV poderá representar mais do que uma nova campanha de promoção. Poderá ser o primeiro passo para ampliar o mapa comercial do turismo mineiro.

