Arte de Pas Schaefer (Divulgação)
Foz do Iguaçu possui uma das paisagens naturais mais conhecidas do planeta.
E mesmo assim, um dos principais festivais de turismo do Brasil decidiu abrir espaço para um artista urbano dentro da programação oficial.
O movimento parece simples à primeira vista. Mas revela uma transformação silenciosa no turismo contemporâneo: destinos deixaram de disputar atenção apenas por atrações naturais e começaram a disputar memória emocional, identidade cultural e experiência urbana.
Ao convidar o artista Pas Schaefer para uma intervenção ao vivo e uma palestra sobre cidades criativas, o Festival Internacional de Turismo Cataratas sinaliza algo maior para o trade: criatividade urbana começa a deixar de ser complemento visual e passa a funcionar como ativo de diferenciação turística.
Turismo criativo começa a ganhar espaço além dos cartões-postais

Durante anos, o turismo de Foz do Iguaçu foi comunicado quase exclusivamente pelas Cataratas.
O modelo funcionava.
Mas o comportamento do viajante mudou.
Hoje, muitos destinos perceberam que apenas visitar um atrativo já não basta para criar vínculo duradouro com a cidade. O visitante quer sentir atmosfera, descobrir narrativas locais e viver experiências que não pareçam replicáveis em qualquer lugar.
É justamente nesse território que a arte urbana começa a ganhar relevância.
A intervenção preparada por Pas para o festival terá como tema a relação entre viajante e natureza. Uma escolha que ajuda a explicar a própria visão do artista sobre Foz.
“Quando querem retratar Foz do Iguaçu, retratam os atrativos naturais, mas esquecem do turista. A ideia é valorizar tanto o turista quanto a natureza e a relação entre os dois”, comenta.
A fala revela uma mudança importante de percepção.
O destino deixa de vender apenas paisagem e passa a construir experiência emocional.
FITCataratas amplia debate sobre cidades criativas
Além da intervenção artística, Pas ministrará uma palestra sobre cidades criativas e transformação urbana.
A discussão ultrapassa o universo do grafite.
Ela entra em temas que começam a ganhar força dentro do turismo internacional, como ocupação criativa de espaços públicos, identidade cultural, segurança urbana e construção de pertencimento.
“A ideia é mostrar como temos capacidade, com olhar criativo, de transformar a cidade. Mapear os problemas e resolvê-los de forma criativa, tornando a cidade mais interessante para as pessoas viverem”, aponta.
Na prática, o FITCataratas coloca no centro do debate uma percepção cada vez mais presente no setor: cidades mais interessantes para moradores tendem também a se tornar mais interessantes para visitantes.
Arte urbana passa a influenciar percepção de destino
Pas também realiza um tour de grafite em Foz do Iguaçu, apresentando bastidores das obras espalhadas pela cidade e os impactos sociais da arte nos espaços urbanos.
O roteiro amplia a experiência do visitante para além da atração natural tradicional.
“Conto o que está por trás das obras, os bastidores do processo criativo de cada arte. É entender um pouco mais sobre a arte na rua e como isso impacta em outros indicadores, como a violência”, explica.
Esse talvez seja um dos movimentos mais interessantes do turismo urbano atual.
A criatividade deixa de funcionar apenas como estética e começa a atuar como ferramenta de leitura da cidade.
O visitante não observa apenas um mural.
Ele passa a perceber comportamento, território, identidade e transformação urbana.
Foz começa a construir uma experiência além das Cataratas
O trabalho de Pas já aparece em pontos conhecidos de Foz do Iguaçu, como Ponte da Amizade, Praça Naipi e Itaipu Binacional.
Mas sua trajetória ultrapassa a cidade.
Formado em Ciências Naturais pela USP, ele integrou o Global Shapers, iniciativa ligada ao Fórum Econômico Mundial, e trabalhou com nomes como Vik Muniz e Massimo Bottura.
Também desenvolve o projeto social Move PAS (Passion, Art and Science), voltado para revitalização urbana e ocupação criativa de espaços públicos.
Entre as ações, está a recuperação de um beco em São Paulo, realizada ao longo de oito meses, em que a intervenção artística ajudou na redução da violência local.
“O número de estupros naquela rua foi para zero”, relata.
A própria relação do artista com Foz ajuda a explicar sua conexão com o destino.
Pas chegou à cidade durante uma viagem pela América do Sul. Pretendia permanecer três dias. Ficou sete meses.
Depois de anos viajando e pintando pelo mundo, escolheu Foz como base.
“Fui levantando vários pontos, como natureza e esse mix interessante de etnias e culturas do mundo inteiro. Vim com esse objetivo: transformar a cidade através da arte”, resume.
Leitura do Mercado | Turismo&Eventos
O FITCataratas ajuda a mostrar uma mudança importante no turismo contemporâneo.
Destinos com atrativos naturais consolidados começam a perceber que paisagem sozinha já não garante diferenciação duradoura.
Experiência urbana, criatividade e identidade cultural passaram a influenciar percepção de valor, permanência e conexão emocional do viajante com a cidade.
Enquanto parte do setor ainda vende apenas atração, Foz do Iguaçu começa a explorar algo mais profundo: a capacidade de transformar criatividade urbana em experiência turística viva.

