Roger Wingert – CEO do grupo Kraken – Foto: Patricia Penna
Em Gramado, a gastronomia deixou de ser apenas um complemento da viagem para se tornar uma das experiências procuradas pelos turistas. Nesse cenário, o Grupo Kraken construiu uma operação que combina restaurantes temáticos, espetáculos musicais e diferentes propostas de entretenimento, com expectativa de faturar R$ 100 milhões em 2026.
Durante uma press trip em Gramado, o Turismo&Eventos conheceu Roger Wingert, CEO do grupo, e teve contato com a trajetória da empresa, que começou em 1980, com Willy e Elvira Scur, e hoje está sob o comando da terceira geração da família. A operação reúne cinco restaurantes entre Gramado e Porto Alegre, com propostas que vão da pizzaria tradicional às casas temáticas e aos jantares acompanhados de apresentações artísticas.
O portfólio inclui a Scur Pizzaria, as duas unidades do Cara de Mau — Porto Cara de Mau e Navio Cara de Mau — e o Gatzz Fondue & Show, em Gramado, além do Cara de Mau Porto Alegre. Em comum, os empreendimentos trabalham com a combinação de alimentação e experiência, buscando fazer do próprio restaurante parte da programação da viagem.
A estratégia acompanha uma característica do destino gaúcho: a oferta de entretenimento não se restringe aos passeios diurnos e às atrações tradicionais. Restaurantes com identidade própria, ambientação temática e apresentações artísticas também disputam espaço no roteiro dos visitantes.
Entre piratas, musicais e tradição familiar
O Cara de Mau transformou o universo dos piratas em uma experiência gastronômica. As casas combinam cenografia, interação com personagens, espetáculos e um cardápio com mais de 80 sabores de pizza. Segundo o grupo, as unidades já receberam mais de 2,5 milhões de visitantes desde a abertura da primeira operação, em 2009.
A proposta vai além da decoração. As apresentações musicais e a participação da tripulação na experiência procuram envolver os clientes em uma narrativa que acompanha a refeição. Para o destino, esse formato amplia a variedade de atrações disponíveis durante a noite e cria motivos adicionais para o visitante reservar tempo e recursos para a gastronomia.
No Gatzz Fondue & Show, a combinação segue outra linha. Inspirada em casas internacionais de espetáculos, a operação reúne fondue e apresentações musicais em um espaço de 3 mil metros quadrados, com capacidade para 300 pessoas. O empreendimento foi criado pelo Grupo Kraken em parceria com a Darte Entretenimento e mantém uma programação de musicais, além de um espetáculo especial na temporada natalina.
Já a Scur Pizzaria preserva a vertente mais tradicional da história familiar. Fundado em 1980, o restaurante é apresentado pelo grupo como o estabelecimento de restaurante com CNPJ ativo mais antigo de Gramado. A casa também reivindica pioneirismo na implantação do rodízio de pizzas na cidade e mantém um cardápio com mais de 80 opções.
A diversidade entre as marcas permite atender diferentes ocasiões de consumo: desde famílias que procuram uma refeição temática até visitantes interessados em espetáculos e clientes que preferem a tradição de um restaurante consolidado na cidade.
A cadeia de fornecedores por trás da experiência
A operação do grupo também movimenta empresas e produtores da região. De acordo com as informações divulgadas pela companhia, a rede conta com 230 funcionários diretos e 60 indiretos, além de adquirir ingredientes e produtos de fornecedores de Gramado, Canela e outros municípios gaúchos.
Entre os exemplos citados estão as compras anuais de aproximadamente 15 toneladas de chocolate de marcas como Caracol, Lugano, Florybal e Tradição Gourmet. A empresa também trabalha com fornecedores de vinhos e espumantes, gelatos artesanais, sucos, morangos, geleias e hortaliças.
A relação com a Vida Verde, pequena produção familiar de Canela, ilustra essa conexão. Desde 2024, o fornecedor entrega molhos de salsa fresca e alho-poró utilizados no preparo de pizzas e outros pratos. A rede também compra geleia artesanal de mirtilo da Geleias Família Wagner, de Gramado, e morangos da Morangos Daper, de Santa Maria do Herval.
Para Roger Wingert, a relação entre gastronomia e economia regional faz parte do modelo de negócio. “A experiência vivida pelo turista movimenta uma cadeia de produtores, famílias e empresas. Quando nossos restaurantes crescem, queremos que esse crescimento também se transforme em renda, oportunidades e desenvolvimento para quem produz e trabalha na nossa região”, afirma.
O impacto dessa rede de compras depende dos volumes adquiridos e da continuidade das relações comerciais. Ainda assim, os exemplos mostram como o consumo nos restaurantes pode alcançar pequenos produtores e empresas que não atuam diretamente na venda ao turista.
Pessoas e formação também entram na estratégia
O grupo também mantém o Projeto Pizzaiolo Mirim, realizado desde 2021. A iniciativa oferece oficinas e treinamentos gratuitos de gastronomia a crianças e adolescentes atendidos por entidades beneficentes. Ao final das atividades, os participantes disputam uma competição avaliada por um júri formado por jornalistas, convidados e figuras públicas de Gramado e Canela.
Na área de gestão de pessoas, a empresa informa ter conquistado, em 2025, o selo Great Place to Work (GPTW), reconhecimento relacionado à avaliação do ambiente de trabalho.
Com expectativa de faturamento de R$ 100 milhões em 2026, o Grupo Kraken procura ampliar sua atuação mantendo a combinação entre gastronomia, entretenimento e identidade local. Seu desempenho também ajuda a observar uma frente importante do turismo de Gramado: a capacidade de empresas privadas criarem experiências que passam a integrar a programação dos visitantes e, ao mesmo tempo, movimentam a economia regional.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
O Grupo Kraken representa um modelo de negócio em que o restaurante disputa espaço como atração turística, e não apenas como local de refeição. A combinação de cenografia, apresentações e gastronomia cria produtos com identidade própria, capazes de ocupar parte relevante da programação de quem visita Gramado. Para o destino, isso amplia as opções de consumo e entretenimento, especialmente à noite.
A operação também evidencia uma conexão econômica que nem sempre aparece na divulgação das atrações: a cadeia de abastecimento. Compras de chocolates, vinhos, frutas, hortaliças e outros insumos podem distribuir parte da receita turística entre produtores e empresas regionais. Para dimensionar esse impacto, porém, seriam necessários dados sobre o percentual de compras locais, os valores movimentados e a evolução desses contratos.
A projeção de faturamento de R$ 100 milhões em 2026 indica a escala que o grupo espera alcançar, mas não deve ser confundida com receita já realizada. O caso mostra como a gastronomia temática pode se tornar um negócio relevante dentro de um destino consolidado, desde que a experiência oferecida consiga sustentar a demanda e diferenciar as marcas em um mercado competitivo.
O Turismo&Eventos Viajou a convite da Insider2 Comunicações

