Foto: Festuris/Divulgação
Evento em Gramado reunirá três histórias de protagonismo e representatividade em uma tarde dedicada à escuta, à diversidade e à participação social
O Festuris – Feira Internacional de Turismo de Gramado vai levar para fora do ambiente profissional do turismo uma discussão que costuma aparecer associada à acessibilidade e à diversidade no setor. Em 13 de novembro, o evento realiza o Festuris Inclusão – Conexões Sem Limites, encontro aberto à comunidade que reunirá, em Gramado, três histórias de pessoas que encontraram no esporte e na arte caminhos para desenvolver autonomia, expressão e protagonismo.
Com apoio do Serra Park e parceria da APAE Gramado, a iniciativa propõe uma mudança de perspectiva: em vez de tratar a inclusão apenas como uma pauta institucional ou setorial, coloca pessoas e suas experiências no centro da conversa.
A programação terá a participação do DJ HeyDoc, da influenciadora e ativista Manuela Vasquez e do atleta Yves Dupont. São histórias diferentes, ligadas ao autismo e à síndrome de Down, mas que convergem em um ponto: o acesso a oportunidades pode alterar a maneira como uma pessoa participa da sociedade e é percebida por ela.
Para o Festuris, a proposta amplia o alcance de uma pauta que já faz parte de sua trajetória. Segundo Marta Rossi, CEO do evento, a parceria com a APAE Gramado também está relacionada a iniciativas de inclusão produtiva e ampliação de oportunidades.
“Promover a inclusão é transformar realidades”, afirma a executiva.
Quando a história pessoal passa a ocupar o espaço público
A escolha dos convidados dá ao encontro uma característica diferente de uma programação convencional sobre inclusão. Em vez de concentrar a discussão em conceitos, o evento parte de experiências concretas.
DJ HeyDoc encontrou na música uma forma de expressão e comunicação. Artista com carreira internacional e autista, ele desenvolveu sua trajetória profissional utilizando a arte como instrumento de conexão entre pessoas típicas e atípicas. Durante o encontro, estará acompanhado da mãe e empresária, Sandra Gabriel.
A história de Manuela Vasquez leva a discussão para outro campo: o da representatividade. Influenciadora e ativista, ela discursou no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, sobre direitos, rede de apoio e inclusão de pessoas com síndrome de Down.
Ao lado da mãe, Leonor Bernhoeft, Manuela representa uma questão que ultrapassa a presença de pessoas com deficiência em eventos e espaços institucionais: quem ocupa o lugar de fala quando as decisões e discussões dizem respeito diretamente a essas pessoas?
Já Yves Dupont construiu sua trajetória a partir do esporte. O atleta gaúcho com síndrome de Down tornou-se, em 2007, o primeiro judoca com síndrome de Down a conquistar a faixa-preta no Rio Grande do Sul e o segundo no Brasil. Também representou o país em competições internacionais e conquistou medalhas em etapas do Judô For All.
Acompanhado pelo professor e treinador Daniel Pires, Yves leva ao encontro outra dimensão da discussão: o esporte como ambiente de desenvolvimento, disciplina, reconhecimento e descoberta de capacidades.
O que muda quando a oportunidade existe
As três histórias permitem olhar para a inclusão por uma perspectiva menos abstrata.
Há uma diferença entre reconhecer que determinado grupo precisa ter acesso a oportunidades e criar condições concretas para que essas oportunidades aconteçam.
No caso de HeyDoc, a música tornou-se um espaço de expressão profissional. Para Manuela, a participação pública abriu caminho para que uma pessoa com síndrome de Down falasse diretamente sobre direitos e representatividade. Para Yves, o judô tornou-se um ambiente no qual uma capacidade esportiva pôde ser desenvolvida até níveis de competição.
É essa relação entre acesso, oportunidade e protagonismo que o Festuris pretende colocar em discussão.
Eduardo Zorzanello, CEO do Festuris, afirma que uma história pode provocar a revisão de conceitos e questionar preconceitos construídos socialmente.
A intenção, segundo ele, é que as reflexões não fiquem restritas ao evento.
Da feira para a comunidade
A realização do Festuris Inclusão – Conexões Sem Limites fora da lógica exclusivamente profissional da feira é um dos elementos que diferenciam a iniciativa.
Ao abrir o encontro à comunidade, o Festuris desloca a discussão para ambientes nos quais a inclusão acontece — ou deixa de acontecer — diariamente: famílias, escolas, empresas, instituições e espaços públicos.
Essa escolha também aproxima a pauta do turismo de uma discussão mais ampla sobre cidadania.
No setor turístico, inclusão pode envolver acessibilidade física, comunicação, atendimento, mobilidade e oferta de experiências. Mas a discussão apresentada pelo encontro parte de uma camada anterior: a possibilidade de cada pessoa participar da sociedade, desenvolver seus talentos e ocupar espaços de decisão e expressão.
A parceria com a APAE Gramado reforça esse posicionamento. A instituição participa da construção da iniciativa e traz para o projeto sua experiência na defesa de direitos, no atendimento e na valorização das potencialidades das pessoas com deficiência.
Inclusão como prática, não apenas como programação
A proposta do encontro também evidencia uma questão que interessa diretamente ao turismo.
Um destino pode investir em acessibilidade e estruturar produtos inclusivos, mas a experiência do visitante não depende apenas da infraestrutura. Ela também envolve pessoas, comportamento, comunicação e capacidade de acolher diferentes públicos.
Por isso, iniciativas que aproximam a sociedade do tema podem produzir efeitos que vão além de um evento específico.
No Festuris Inclusão – Conexões Sem Limites, a escolha foi partir de histórias reais para provocar essa reflexão. A música, o esporte e a participação social aparecem como caminhos diferentes, mas com um elemento comum: quando existe espaço para desenvolver uma capacidade, a deficiência deixa de ser o único aspecto pelo qual aquela pessoa é percebida.
O encontro será realizado em 13 de novembro, em Gramado, com participação aberta à comunidade.
Leitura de Mercado | Turismo&Eventos
Ao levar o debate sobre inclusão para fora do ambiente comercial da feira, o Festuris aproxima turismo, cidadania e responsabilidade social. A iniciativa também mostra que a discussão sobre diversidade no setor pode começar antes da experiência de viagem: na forma como a sociedade cria acesso e reconhece diferentes formas de participação.
Para o turismo, essa abordagem é relevante porque amplia o conceito de inclusão. Não se trata apenas de adaptar espaços e serviços, mas de compreender que pessoas com deficiência também são viajantes, profissionais, artistas, atletas, consumidores e protagonistas de suas próprias histórias.

