Promoção e conscientização no combate ao turismo de massa; por Clayton Araujo, gerente comercial da Europamundo

Executivo sugere estratégias que vão da hospedagem no entorno de grandes centros a roteiros alternativos, mas alerta para a necessidade de envolver governos, iniciativa privada e sociedade

O que a Praça de São Marcos tem em comum com as praias de Barcelona? Quais são as semelhanças entre a Torre Eiffel e os canais de Amsterdã? Localizados em países diferentes e com atributos distintos, esses locais se alinham no quesito atratividade e o resultado é o overtourism. O fenômeno relacionado à presença excessiva de turistas em um determinado local é debatido há anos e, apesar de ser mais comum em destinos europeus, vai além do Velho Continente.

Os viajantes estão por lá ao mesmo tempo e o tempo todo, disputando espaço com outros, o que cria um ciclo de desvantagens. “Ninguém ganha com o overtourism, mas ele segue ocorrendo mundo afora”, crava Clayton Araujo, gerente comercial da Europamundo. Além de esgotar seus atrativos, especialmente aqueles ligados a atributos naturais, a experiência aquém da expectativa por parte dos viajantes e as dificuldades enfrentadas pelo trade, no que diz respeito à mão de obra são desafios que se complementam aos que vivem as comunidades locais, que enfrentam problemas como trânsito, lixo nas ruas e aumento no custo de vida, entre outros.

Mesmo assim, os chamados destinos “must-go” continuam sendo desejados pela maioria dos viajantes, que investem grandes somas e enfrentam as multidões na tentativa de fazer um bom clique: são muitas as mãos movimentando essa engrenagem o que faz com que a parada seja difícil – mas não impossível.

Para Araújo, o Brasil vive um cenário de excessos ligado à sazonalidade, mas que ainda não configura overtourism. Com ênfase no “ainda”, o executivo lembra que já há traços do que se vê pela Europa refletidos em alguns destinos brasileiros que começam a empregar estratégias para combater o turismo de massa. “Atrativos como o monumento ao Cristo Redentor e o Parque Nacional do Iguaçu já limitam a entrada diária de visitantes. E Ubatuba, no litoral norte paulista, começou a taxar a entrada de carros no município. Então já vemos uma preocupação em relação ao overtourism no País. A limitação é uma estratégia eficaz, mas a taxação cria uma barreira econômica e não causa um impacto tão significativo na entrada de turistas. É preciso pensar além para fazer mais”, reflete.

Para ele, a estratégia começa na conscientização em relação a alternativas e deve envolver governos, iniciativa privada e sociedade. “Ninguém precisa riscar Paris ou Lisboa da lista dos sonhos, mas dá para conhecer esses locais sem pressioná-los ainda mais. Podemos incluir as visitas no roteiro, pernoitar lá por uma ou duas noites e, nas demais, ficar em um bairro mais afastado, em um vilarejo nos arredores ou na cidade vizinha para aproveitar a noite de forma mais tranquila em um lugar menos conhecido”, sugere.

A criação de polos para hospedagem no entorno de destinos mais procurados é realidade em diversas partes do mundo e dá as caras no Brasil – que o diga Santo Antônio do Pinhal, município que se desenvolveu como alternativa à popular Campos do Jordão. “Em Barretos, durante a Festa do Peão, os viajantes também optam por se hospedar nas cidades próximas para evitar a superlotação que eleva os altos custos na cidade-sede do evento”, destaca. Afinal, além de descarregar os fluxos dos pontos centrais, a solução ajuda a desenvolver regiões menos massificadas e é uma alternativa mais econômica em termos de tarifas, o que democratiza o acesso ao turismo.

É preciso, entretanto, criar condições de hospedagem e de transporte para os turistas, por meio de um trabalho conjunto entre a iniciativa privada e incentivos do poder público. Araújo também chama o mercado de turismo à responsabilidade de formatar pacotes com alternativas aos grandes centros porque é a promoção desses produtos que vai gerar o interesse e a demanda. “Depois da primeira viagem, o ganho em experiência vai levar o turista a pensar nos benefícios e não nas desvantagens de ficar fora dos locais mais populares. E ele se torna um divulgador, ajudando a roda a correr para o lado oposto”, diz.

Na visão do executivo, a dimensão territorial é uma grande vantagem do Brasil nesse sentido. “Até pouco tempo atrás as pessoas não conheciam o Jalapão e hoje o destino está na moda, mas isso só é possível porque hoje há bases para receber esses turistas”, argumenta. “Da mesma forma, os brasileiros estão descobrindo a Chapada das Mesas e vendo que o Maranhão tem inúmeras outras opções para além dos Lençóis Maranhenses”, afirma.

Ele lembra, entretanto, que o ciclo inclui o incentivo do poder público para o investimento na criação de estruturas em novas regiões pela iniciativa privada, além do fomento desses destinos via secretarias de turismo e da formatação de produtos pela cadeia de vendas.

“O combate ao overtourism demanda esforços do mercado, iniciativa dos governos e mudança no comportamento do consumidor, mas se revela como grande oportunidade para o desenvolvimento socioeconômico de destinos e para promover equilíbrio àqueles que estão massificados, além de abrir caminho para oferecer experiências muito melhores aos viajantes”, finaliza.


(Foto: Clayton Araujo, gerente comercial da Europamundo/Divulgação)

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